É Tudo Verdade: “Sagrado”

Em 2019, Alice Riff nos brindou com o contagiante Eleições, em que flagrava uma campanha do grêmio escolar num colégio da Barra Funda, em São Paulo. Sua câmera observacional estava voltada exclusivamente para os/as estudantes. Sete anos depois, ela nos traz uma espécie de contracampo daquele filme, enfocando somente professores e funcionários/as de uma escola de primeiro grau em Diadema (SP). Os alunos permanecem fora do quadro, vistos apenas através de seus escritos e desenhos.

Lançando mão de um modelo de documentário adotado pelo recém-falecido mestre Frederick Wiseman, Alice capta fragmentos do cotidiano daquelas pessoas envolvidas com os muitos aspectos da educação. Isso não é pouco num bairro afetado por casos de carência alimentar, gravidez precoce, violência doméstica e desarranjos familiares. Não raro esses problemas transbordam para dentro da Escola Municipal Sagrado Coração de Jesus, a “Sagrado”.

Recebemos sinais desse contexto pelas reuniões e conversas entre professores e funcionários. O método me pareceu um pouco flácido para desenhar aquela conjuntura em que os problemas de saúde, comportamento e aprendizado se acumulam e se confundem. Vemos o cuidado com que os assuntos são discutidos, mas tudo acaba se limitando a uma troca de impressões um tanto fria.

Entram na roda também as reinações de uma cozinheira performática, as conversas corriqueiras entre dois zeladores idosos, anedotas sobre assombração e ruminações sobre questões pessoais. Uma impressão de banalidade se instaura, ainda que a intenção tenha sido de abordar ângulos diversos da instituição.

No subtexto, porém, uma história de resistência é contada pelas memórias da ocupação do então chamado Buraco do Gazuza em 1989. Sagrado começa com imagens de violência policial numa tentativa de reintegração de posse e termina com uma bela homenagem musical à luta por moradia e dignidade. Ouvir os alunos cantarem aquela longa letra épica é um motivo de esperança.

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